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12/29/2011

SANTA IRIA DE THOMAR – parte I

Introdução (carregue nas imagens para ampliação)
Autoria: Degraconis e Paulo Peixoto | Cethomar

A manifestação do fenómeno religioso, desde os tempos pré-históricos, tem privilegiado locais onde o profano e sagrado se possam tocar de alguma forma ou esconda em si características mistéricas, esfíngicas ou enigmáticas, e exemplo disso encontramos nos lugares que exprimem todo esse sentimento de distanciamento, seja o alto da montanha ou os cumes das serras, os bosques ou florestas nos sopés das colinas que se estendem por essas acima, a falésia escarpada de difícil acesso ou mesmo as grutas, penhas ou lapas onde a divindade se possa revelar numinosamente.

Nossa Senhora do Marão ou da Serra

Como nos diz Moisés Espírito Santo a “característica mais notável de qualquer santuário é a sua inacessibilidade” e “a maior parte deles situam-se nos montes, ou melhor, numa depressão da montanha ou de uma colina, num cenário natural “belo e horrível” que atrai e assusta”, constituindo-se como um “processo de domesticação” a colocação de um santuário nesses lugares selvagens, até porque a divindade mesmo ao longo da história do cristianismo sempre apresentou resquícios de sentimento pagão, daí muitas vezes se invocar a religião popular quase como em contradição à religião oficial.

 Nossa Senhora da Pena – Na serra de Sintra foi fundado um convento de frades Jerónimos, o qual deu lugar ao actual Palácio da Pena – No centro pode ver-se como D. Fernando em 1839 o viu antes de construir o palácio – Em cima, direita, pode ver-se  um outro templo conhecido como de Santo António ou das colunas. (qualquer uma das imagens estão recortadas para o efeito pretendido)

As origens dos santuários que pontilham mundo fora são frequentemente legendárias e de difícil cronologia ou percurso histórico, e perdendo-se disso lembrança, no decorrer dos tempos tende o homem a colmatar-lhe as falhas de que haja memória, sempre de acordo com a religiosidade vigente, e de pequenas alusões históricas ou simples acontecimentos acabam esses santuários por reivindicarem fabulosas histórias, as quais dificilmente poderão ter qualquer adesão à realidade inicial, situando-se quase sempre em momentos de tal modo longínquos que a história tem dificuldade em confirmar.

Rocha da Mina – local romanizado onde num passado longínquo se terão adorado
estranhas divindades das quais não existe hoje memória.

Decerto, a lenda de Santa Iria, não escapa a estas vicissitudes do fenómeno religioso, e mesmo não tendo origem numa manifestação teofânica, pois assume-se como um acontecimento real do quotidiano nabantino, assume a presença divina lugar central nessa história na medida em que Iria a invoca e, levada pelo rio Nabão, terão os anjos, emissários de Deus, a conduzido em segurança até Santarém onde lhe terão dado digníssima sepultura, hoje marcada por um monumento de lavra antiga.

 Dos painéis da Igreja de Santa Iria da Azóia | Padrão de Santa Iria em Santarém
ao qual dedicaremos a terceira parte deste artigo

Os santuários (e atenda-se ao facto do que veio a ser o Convento de Santa Iria já o era antes desse episódio segundo as antigas crónicas) quase sempre se revestem de carácter excepcional: nascem de invulgares factos ou estão marcados por fenómenos extraordinários, como tal considerados miraculosos, usualmente marcados por características naturais atípicas ou em função de um acidente de paisagem que reforce o seu estatuto de transcendente.


Igreja de Nossa Senhora da Lapa em Soutelo  | Capela Anta na aldeia de Pavia

 Igreja de Nossa Senhora da Lapa em Sernancelhe, Viseu.

Transpondo para a realidade Nabantina o dito e sabendo que a lenda de Iria é indissociável da designada “cisterna de Santa Iria”, outrora conhecida e referida como “Pego de Santa Iria”, excepção se faça à crónica dos monges franciscanos que no século XVIII a referem como cisterna, poderemos pensar ser esse o lugar por excelência, determinante para a localização da lenda e posteriormente, do recolhimento e convento das monjas de Santa Clara na planície de Tomar, ou seja, o sítio  que continha em si alguma particularidade que levou à sua consagração, tendo em conta que a lenda é falaciosa, não obstante eventualmente a lenda conter algum acontecimento real mas bastante diferente do que se veio a fixar muito tardiamente na hagiografia da Santa.
  
 Cisterna ou Pego de Santa Iria

Da procura de documentação que abordasse especificamente a cisterna, de forma a ilustrar o filme que apresentamos com um texto, resultaram relatos e textos que não foram possíveis aproveitar, tendo-se na altura optado pelo texto do Frei Isidoro de Barreira em consideração, quer à sua belíssima obra literária dedicada à biografia da santa, inundada de minuciosas descrições, quer pelo facto de ter sido monge conventual do Convento de Cristo em Tomar.

 Obra de Frei Isidoro de Barreira
Capa da biblioteca de Ruy Barbosa

Por excelência, é a cisterna, doravante designada por Pego, o local que maior fascínio exerce sobre quem se debruce sobre a história do Convento de Santa Iria, uma espécie de Santo dos Santos, não tivesse sido esse o local onde Iria foi brutalmente assassinada por uma sombria personagem, que no seu próprio nome de Banam(/ão) parece encerrar um mistério.

Da obra “Historia das vidas e feitos heróicos e obras insignes dos sanctos” 
de Frei  Diogo do Rosário - Ano de 1585. Sobre esta falaremos mais adiante.

Procurámos então, a partir dos textos que já havíamos seleccionado, saber ainda mais sobre esse local, recolhendo para o efeito os mais antigos textos que o descrevessem, de preferência antes da edificação do edifício quinhentista que hoje todos conhecemos, de forma a tentar perceber se apresentaria esse local alguma característica extraordinária ou constituísse algum “acidente” de paisagem nas margens do rio Nabão que justificasse a edificação de um santuário naquele sítio.

Algumas das obras que iremos abordar, entre muitas outras.

Não foi empresa fácil, até porque alguns deles estão em língua erudita, ou seja, em latim, e não os encontrámos traduzidos para português, já para não invocar a sua escassez e aridez descritiva; não tinham os autores preocupação em dar-nos conta do espaço envolvente, tão só da história e da lenda.

Antes de terminar esta introdução queremos deixar aqui a nossa prestada homenagem a Vieira Guimarães que na sua obra “Thomar Santa Iria” incluiu uma parte que designou por “Excertos documentais” relativos à lenda da santa, recolhidos por si e seus companheiros de pesquisas e em parte, confessa dever ao erudito investigador Pedro de Azevedo.

Diz-nos Vieira que foi um trabalho difícil e demorado – como o sabemos -  e que constitui o contributo que melhor conseguiram para o edifício histórico da cidade dos Gloriosos Templários e dos imortais Cavaleiros de Cristo, terminando por dizer que, outros,  de melhores qualidades poderão conseguir melhor, e se forem vivos, com muitos aplausos os louvarão. Não saberemos se alguma vez poderíamos ser dignos de tais aplausos, mas quisemos também dar um contributo para o seu legado documental e iremos trazer mais algumas obras, tão antigas quanto as suas – algumas mais ainda – para esse “Excerto documental” que é de homenagear.
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12/28/2011

SANTUÁRIO MARIANO EM THOMAR

A desaparecida Capela da Nossa Senhora dos Anjos



“E a velha Calcada de Paialvo, onde tanto peregrino de pé e de joelhos passou em penitência e oração à idolatrada Senhora dos Anjos, desapareceu! Sic transit gloria mundi! E Nossa Senhora, agora, jaz, quase olvidada, numa altar lateral da Igreja de São Francisco.” (Amorim Rosa)

Faz precisamente um ano que publicámos o artigo “Os Pastorinhos de Santa Bárbara” no qual dedicámos no capítulo nono algumas palavras à antiga Capela de Nossa Senhora dos Anjos desaparecida por completo no ano de 1865, tendo a sua pedraria sido empregue nos concertos da Rua da Graça que na altura se levavam a cabo em virtude do desterro da estrada de Paialvo.
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Não sendo propósito desse artigo debruçarmo-nos sobre esta capela, limitámo-nos nessa altura a tímidas descrições informando que era de “alpendres de boa architectura assentes sobre colunas de pedra, casas para recolherem os romeiros e para residência do ermitão, hoje já d’ella nem restam vestígios (…)”, e que a imagem da Nossa Senhora dos Anjos já havia desaparecido, ficando da mesma, uma imagem divulgada na “História de Tomar” de Amorim Rosa do ano de 1965 e a citada descrição do inicio deste pequeno artigo. 


De forma a recordar esse nosso trabalho, nomeadamente o capítulo em questão, vimos acrescentar uma descrição mais alongada da capela e da própria imagem da Nossa Senhora dos Anjos, socorrendo-nos para isso do Tomo III do “Santuário Mariano” do Frei Agostinho de Santa Maria do ano de 1711, o qual na última parte dedica-se à descrição de todos os santuários da Prelasia de Tomar.
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Fica então aqui recorte nosso da obra na parte que interessa ao tema em questão, não se achando por necessário transcrever para português actual por ser de fácil leitura e eventualmente deliciar quem goste de ler no original.



Carregue em cima das imagens para ampliar
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12/26/2011

A CISTERNA DO CONVENTO DE SANTA IRIA

Pêgo de Santa Iria | Thomar
Edição de imagem: Paulo Peixoto | Cethomar
Texto: Degraconis | Cethomar

Foi apresentado este vídeo no nosso grupo privado do Facebook no último dia da feira de Santa Iria, em Outubro. Não querendo deixar de o divulgar ainda dentro do mesmo ano aqui fica agora no blog. No seguimento iremos publicar um artigo dedicado a este local, o do martírio, e ao do sepultamento em Santarém.

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11/26/2011

VIEIRA GUIMARÃES NA COVA DA IRIA|MILAGRE DE FÁTIMA

Autoria: Cethomar
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No âmbito das pesquisas que temos vindo a desenvolver para o artigo que contamos publicar em conjunto com o vídeo da “Cisterna de Santa Iria”, já apresentado no nosso grupo privado do facebook, fomos surpreendidos com uma descrição: Esteve Vieira Guimarães presente no dito “Milagre do Sol” ocorrido no dia 13 de Outubro de 1917 na Cova da Iria.


Não só soubemos da sua presença no local em tal data, conforme confessa, como fomos presenteados com uma singela descrição do fenómeno, assim como também com uma interpretação do que julga ter-se passado naquele momento de epifania.


Não é nossa intenção abordar o episódio, tão só publicar a nota de rodapé que dedicou a esse episódio que considerou como sendo produto de uma histeria colectiva que reflecte a força religiosa de um povo.


Vamos então legar a palavra a Vieira Guimarães sem tecer qualquer tipo de opinião sobre o milagre ou sobre a sua própria opinião que decerto não surpreenderá quem quer seja.



Nota de rodapé do livro apresentado

Após a leitura das linhas que deixou registadas na sua obra “Thomar – Santa Iria”, podem nas próximas imagens tentar identificar a presença de Vieira Guimarães entre a multidão, a qual não conseguimos nós detectar, e repetindo as palavras do Paulo Peixoto: “Procure-se por aquele que tiver com um belo fato Domingueiro”!

Foto de Vieira Guimarães à esquerda, divulgada pelo blog http://tomaracidade.blogspot.com/

Terminaremos então com a partilha de um comovente video a preto e branco, talvez da década de cinquenta, que retrata o episódio no qual Vieira Guimarães foi parte, deveras ilustrativo das descrições da época. Caso para dizer, daquilo que não viu.

(também deixamos aqui ainda um outro video de 2011. Recapitulação?)

11/10/2011

FONTE DA GRUTA DO SANGUE | A MISTERIOSA CRUZ

MATA DOS SETE MONTES
Edição: Paulo Peixoto | Cethomar
Texto: Degraconis | Cethomar


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Para melhor imagem ver no

Este vídeo resulta dos comentários que se foram gerando no nosso grupo privado do Facebook e os quais gravitaram em torno do tema da existência ou não de uma cruz da Ordem de Cristo na entrada da gruta da fonte do sangue na Mata dos Sete Montes. Poderá aderir ao grupo solicitando-o no próprio facebook.
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9/22/2011

QUINTA DO CONVENTINHO - parte III

HISTÓRIA, LENDA E MISTÉRIO -  Links: Apresentação | Parte II
Autoria: Paulo Andrade | Cethomar 

3. Personagens da história do Conventinho | O Ministro e o burlão.

Foi o Conventinho adquirido por António Bernardo da Costa Cabral a determinada altura, o qual o transformou numa sumptuosa e verdadeira vivenda estival.


Vários foram os imóveis de interesse histórico adquiridos pelo primeiro Conde de Tomar, ou pelos quais havia manifestado interesse, tendo por vezes enfrentado oposição por considerarem as suas pretensões imobiliárias abusivas. Talvez tenha sido por esse motivo que a aquisição da Quinta do Conventinho se tenha concretizado por intermédio da sua filha Dona Luisa Maria da Costa Cabral, tendo sido no entanto, ao contrário do que aconteceu com o Convento de Cristo, adquirido em hasta pública, um negócio entre particulares, pois sabe-se que anteriormente havia pertencido a José Silveira, o vendedor neste negócio, e antes deste, património de Teresa Bernarda de Jesus, a primeira proprietária de que há registo após a expulsão dos frades em 1934.


Portugal Antigo e Moderno de Pinho Leal
Archivo Pittoresco Vol VI de 1863

Poderíamos pensar que Costa Cabral teve um especial interesse pelo património que havia sido de origem templária, até porque é conhecido o interesse que manifestou na aquisição de parte do Convento de Cristo e a atenção que lhe concedeu posteriormente, mas a diversidade de imóveis que constituíram o seu património particular não permitem concluir que assim fosse. Terá sido precisamente, o número avultado de interessantes imóveis na posse das Ordens Religiosas que levaram a estas incidências, mais notórias nas ocupações que o estado levou a cabo, quer após a extinção das ordens, quer na implantação da República em 1910.

Uma outra curiosidade deste convento são as notas falsas que por aqui passaram, ou como se diz, que aqui se lavaram nos tanques de forma a dar-lhes um ar de antiguidade e de manuseadas para que fossem tidas como verdadeiras. Também se conta, e com semelhante intenção, que muitas dessas falsas notas eram espalhadas pelo chão da quinta para serem pisadas para ficarem com aspecto de usadas!

Recriação histórica na própria Quinta do Conventinho (fotografado por nós)

Trata-se de mais uma das personalidades que passaram pela Quinta do Conventinho e fizeram história. Foi esta, Artur Virgílio Alves dos Reis e seu amigo José Bandeira, menos conhecido, mas ambos personagens centrais do escândalo das notas de quinhentos escudos envolvendo o Banco Angola e Metrópole e ainda um pretenso Marquês de Sagres.  

Alves dos Reis e José Bandeira conheceram-se em Janeiro de 1924 a propósito de uns negócios em Angola e no dia 6 de Julho de 1924 Alves dos Reis foi preso pela primeira vez em Lisboa, acusado de burla e abuso de confiança, tendo no entanto alcançado a liberdade. Em Junho de 1925 concretiza um dos seus grandes sonhos fundando o Banco Angola e Metrópole, a partir do qual produzem e introduzem no sistema financeiro as míticas notas falsas de quinhentos escudos, havendo após o escândalo estalar, tremer a credibilidade nos bancos. Talvez seja por isso que se fale em guardar notas debaixo da cama!


Da colossal fortuna que somaram, apostaram na compra de imóveis como forma de assegurarem o seu futuro, tendo sido um desses imóveis a Quinta do Conventinho, adquirida em 1925 por mil e duzentos escudos. Todavia no dia seis desse mesmo ano é preso, voltando apenas a ser libertado em 1945, curiosamente convertido a uma nova religião.
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Parte IV

9/15/2011

QUINTA DO CONVENTINHO - parte II

HISTÓRIA, LENDA E MISTÉRIO -  Links: Apresentação e parte I
Autoria: Paulo Andrade | Cethomar 

2. Antecedentes e fundação | Problemática da data da Fundação


Como já referimos, e parafraseando novamente Mendes Leal, “é legendária a existência em Loures do convento franciscano feito pelos Templários de 1200 a 1300 com a denominação — Divino Espirito Santo— da ordem de S. Francisco d'Assis, com a sua grande egreja; edifício esse cahido pelos dois terramotos de 7 e 26 de Janeiro de 1531, dos quaes, em abono da verdade d'este historiado se vêem, pelo interior das hortas, hoje do Saraiva, em Loures, uma respectiva parede antiquíssima com as cavidades de capellas; e também, ha poucos annos, todos viam a citeira hoje, demolida do cimo d'um largo vão de porta, demonstrando ter tido ali sino ou campanário”.
 

Foram então os terramotos do ano de 1531 os responsáveis pela sua destruição, tendo-se posteriormente erguido das suas ruínas em 1541 uma ermida a que deram a mesma designação de Espírito Santo, assim como um albergue e um hospital, por iniciativa da associação de conterrâneos que se denominaram como “Irmandade do Espírito Santo”, substituindo-se assim à Ordem Terceira, mas mantendo a mesma vocação.

Ao mesmo assunto também se reporta o Padre Álvaro Proença na sua obra " Subsídios para a história do Concelho de Loures” em 1940, referindo que “Na vila de Loures existiu um convento de frades capuchos. Era de treze o número de religiosos e nada se conhece do seu início. Parece ter sido construído no século XIII e tinha uma magnífica cerca. Os terríveis terramotos de 7 e 26 de Janeiro de 1531 transformaram-no num montão de ruínas”.


Livro do P. Álvaro Proença e de Vítor Manuel Adrião
Cruzeiro de Loures entretanto desaparecido, vendo-se agora em
 frente à igreja matriz de Loures apenas a sua base
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Quanto à sua localização encontrámos referências na publicação da Câmara Municipal de Loures “De Convento a Conventinho, biografia de um espaço”, todavia estamos em crer ter-se apoiado na obra que citamos no parágrafo anterior e que nos diz que "Á entrada da vila, perto do lugar onde está hoje (1940, data do livro) o posto de fiscalização da policia de transito, ainda se vêem os muros velhíssimos da antiga cerca conventual, hoje cortada pela estrada Lisboa-Porto. Dentro desse recinto existiu o edifício do convento e a igreja anexa que o terramoto só deixou ruínas”

Esse antigo convento localizar-se-ia então junto ao antigo posto de fiscalização da polícia de trânsito à entrada de Loures, também desaparecido, designado hoje esse local de Largo José Paulo de Oliveira.

Local do antigo posto de fiscalização, hoje desaparecido

Posteriormente, em 1574, segundo a publicação Câmara Municipal de Loures, ou em 1975, conforme se lê em Mendes Leal e noutras publicações mais modernas, iniciou-se a construção de um novo convento nos terrenos do lugar da Mealhada, a dois quilómetros de Loures, e em memória dos anteriores foi de igual modo dedicado ao Divino Espírito Santo, que desta vez acolheu os franciscanos Arrábidos (e os velhos frades da ermida construída pela Irmandade quarenta anos antes, segundo Mendes leal), construção essa patrocinada por Luís Castro do Rio, fidalgo de Frielas, da família dos Condes de Barbacena em terrenos seus tornando-se assim, além de fundador igualmente padroeiro deste convento.


Antiga imagem do Conventinho

Luís Castro do Rio era irmão de Diogo de Castro, sendo ambos mercadores muito ricos e provavelmente de ascendência judaica. Filhos de António Vaz de Castro e Dona Brites de Castro, só acrescentaram “Rio” ao seu nome após o Rei Dom Sebastião conceder carta de brasão de armas a Diogo de Castro em 1561 e lhe ceder a Quinta do Rio em Sacavém sob obrigação de usar o apelido Rio, e como reconhecimento a Diogo de Castro por serviços prestados à nação como Cavaleiro da Ordem de Cristo. No brasão concedido aos Castro do Rio destacam-se como elementos mais significativos o escudo, uma flor-de-lis (verde), um elmo cercado por uma linha de água e diversas arruelas.


Encontra-se Luís Castro do Rio sepultado numa das criptas da capela – na maior e debaixo do arco triunfal – e da qual dar-vos-emos detalhes mais adiante, informando desde já, ter sido esta cripta aberta e sujeita a investigações arqueológicas e forenses à relativamente muitos pouco anos, não obstante ser provável que já tivesse visto a luz do dia pelas mãos da família Alemã que se estabeleceu na Quinta durante bastantes décadas do século XX, não tendo no entanto, se tiveram de facto a conhecido por dentro, tocado no seu interior, dado que quando da sua abertura aparentava não ser “mexida” à muito tempo, reportando-se a sua abertura e remexidas ao ultimo sepultamento que tivesse abrigado – como se verá mais à frente, foram encontrados mais de duas dúzias de corpos, o que indica ter existido sepultamentos em datas diferenciadas. (entretanto, e como irão ver pela publicação de um email que entretanto recebemos, soubemos ter sido essa cripta aberta na década de oitenta, tendo-se fechado imediatamente)

Foto de como a cripta se encontrava quando da sua abertura
 na década de noventa (mais adiante publicamos imagens actuais)

De certo terão os promotores da abertura da cripta havido ter uma surpresa quando, após terem descido as escadas que lhe dá acesso, foram surpreendidos por uma interessante epigrafia de Luís Castro do Rio que desse modo se dirige em discurso directo a quem “viole” esse espaço. Encontra-se essa inscrição em local estratégico e bem visível - nitidamente intencional – por forma a que seja impossível entrar nessa câmara funerária sem se confrontar com essa voz que parece querer ser ouvida apelando aos leitores dessa mensagem para que não abandonem o cadáver que se encontra vazado da alma.


DVM VIXI VARIAS VOLVEBAM IN PECTORE CVRAS /

  QVIPP(E) QVIES ABERAT QVAE NV(n)C MIHI PARTA SEPV(I)CHRO / EST 
  SI QVANDO HVC VENIAS Ô LECTOR , VOLVERE SAXVUM/
  DESINE NIL PRETER VERMES ET INANE  CADAVER /
  IN VENIES TERRA OSSA FOVET FAELICIOR VMBRA /
  OVTINAM A(S)TRA PETAT ,DULCIQZ FRVATVR OLIMPO/
  HOC IDEO NOS SPONTE DEO DVM VITA MANEBAT/
  CONDIDIMVS TEMPLVM QVO FVNERA NOSTRA QVIESCV(n)T/
  
"Na verdade, o repouso no sepulcro que estava distante, chegou
         agora para mim. Se alguma vez aqui vieres, ó leitor, ler (esta) 
         pedra, nada renuncies, salvo os vermes, ao cadáver inútil . Mais 
         feliz na sombra, (o meu cadáver) conserva os ossos na terra 
         (para a qual) virás. Para tal, nós, por vontade divina, enquanto 
         a vida durava, construímos um templo no qual descansam os 
         nossos restos mortais"
 

Era o Convento da Mealhada – Quinta do Conventinho – casa de frades franciscanos da Província de Santa Maria da Arrábida, cuja Sede Mater foi fundada na Arrábida por Frei Martinho de Santa Maria, Frei Pedro de Alcântara e mais dois outros eremitas espanhóis, tendo o beneplácito do primeiro Duque de Aveiro, Dom João de Lencastre, oferecido a estes inicialmente uma ermida em plena serra e logo de seguida  terras na encosta da serra para construção do convento propriamente dito, alias conhecido como Convento Novo. Contudo é a Frei Agostinho da Cruz, poeta e místico, que na Arrábida viveu quase 20 anos que ficou o convento da Arrábida mais a dever pela sua obra “Elegia da Arrábida”.

Frei Martinho de Santa Maria de olhos vendados 
no Convento da Arrábida

Segundo Frei António da Piedade, conforme deixou escrito na sua obra “Espelhos de Penitentes e Chrónica da Província de Santa Maria da Arrábida” de 1728, obra na qual dedica meia dúzia de páginas à fundação e a notícias do Convento do Espírito Santo de Loures, teria sido a pedra da fundação lançada no dia do Espírito Santo do ano de 1573, o que contradiz as duas datas já anteriormente avançadas.


É esta a obra na qual se tem baseado os mais recentes trabalhos dedicados ao Conventinho, nomeadamente o da Câmara Municipal de Loures a que já aludimos, decerto por ser a que maior destaque dá à história deste Convento, visto ser um dos conventos fundados pelos frades que escreveram a crónica. Todavia, após exaustivas buscas em obras anteriores, encontrámos breves referências à sua fundação, por ventura colhidas junto a crónicas mais antigas, as quais devem ter servido a Frei António da Piedade para a sua compilação histórica, ou mesmo recolhidas junto a memórias dos freires do Conventinho.

Encontrámos precisamente essas breves referências no "Agiológio Lusitano", no volume II e IV, este último posterior à crónica do Frei António da Piedade, criticando-o por não haver dado noticias mais alongadas quanto às virtudes dos freires que habitaram o Convento da Mealhada (Conventinho).


Quanto ao volume II desta obra que data de 1657, anterior à crónica da Arrábida, além de não existir mais do que uma sucinta descrição de sepultamentos que houveram nesta “casa de Loures” e a referência a uma data de fundação que não coincide com outras já adiantadas anteriormente neste artigo, encontrámos uma preciosa informação: Era esta casa, ou convento, a décima terceira da Província de Santa Maria da Arrábida, facto a que não alude a crónica, mas que não escapou ao Padre Álvaro Proença e que possivelmente terá sido extractada desta obra ou de alguma outra lista dos conventos desta província que não havemos conhecido apesar das pesquisas que se fizeram nesse sentido. Vítor Manuel Adrião repete a mesma informação na obra “Ode a Loures”, na qual dedica um capítulo à Quinta do Conventinho.


Chegados aqui iremos tentar desvendar o mistério das distintas datas atribuídas à fundação do Conventinho, já que consultámos e demos-vos a conhecer as obras nas quais as publicações modernas se terão apoiado para fornecer datas diferenciadas. Pois bem, a data de 1574 só a vemos referida na obra da Câmara Municipal de Loures “De Convento a Conventinho, biografia de um espaço“, informando que " A Construção do Convento...iniciou-se no dia do Espírito Santo, no ano de 1574.(Piedade,1728:537)", e que julgamos ter sido deduzida a partir do seguinte parágrafo do “Espelhos de Penitentes e Chrónica da Província de Santa Maria da Arrábida” que informa que “se lançou a primeira pedra em dia do Espírito Santo do anno seguinte de 1573”, dando ideia de que a fundação teria sido então no ano de 1574, visto ser obviamente o ano seguinte ao de 1573. Todavia referia-se o cronista ao ano de 1572 expresso na página anterior, ano em que foi eleito Ministro Provincial Frei Baltazar das Chagas, o qual teve “ânsia” em “dilatar” a província com novas fundações, tendo o feito no “anno seguinte”. Quisesse o autor dizer o ano de 1574, teria dito “do ano seguinte ao de 1573”, invés de “ano seguinte de 1573”, o qual determina o ano em vez de o induzir.

Três excertos das pag.526 e 527 de “Espelhos de Penitentes e
 Chrónica da Província de Santa Maria da Arrábida”, parte I, Livro III, Cap. 45

Resolvida a questão da fundação no ano de 1574, restam outras duas datas: a de 1573 a que alude a Crónica atrás referida e a data de 1575 atribuída à fundação pela generalidade dos autores do último século, como sejam, Pinharanda Gomes, Vítor Manuel Adrião, Mendes Leal e Álvaro Proença, esquecendo por agora obras de menor valor quanto ao tema. Não nos é sabido se estes terão encontrado a data na “Corografia portugueza: e descripçam topografica do famoso reyno de Portugal” de 1712, visto esta obra avançar com semelhante data ou se terão a recolhido na mais antiga referência que havemos tido conhecido no âmbito deste artigo, ou seja, no “Agiológio Lusitano” (1657, vol. II, pag 272), a qual adianta também a data de 1575.


A nosso ver, e acreditando que Frei António da Piedade houvesse recolhido a data de 1573 junto aos próprios frades do Conventinho - eram da mesma Ordem - que porventura teriam ainda disso memória ou a data inscrita em algum dos seus livros de acontecimentos, alias muito provavelmente obrigatórios como o eram para as restantes Ordens, é bastante credível ser essa data a da fundação, não obstante o “Agiológio Lusitano” ser anterior quase em setenta anos, pelo que cremos ser o ano de 1573 o do lançamento da primeira pedra, como o próprio o diz, e o ano de 1575 (do Agiológio) o da instalação dos frades senão mesmo de conclusão da obra, sendo por norma esta a data que se costuma inscrever numa das pedras do monumento.

Sabemos que em 1580 houve Capítulo da Ordem neste convento, pelo que não estando as obras concluídas em 1575, mas somente criadas as condições de habitabilidade para estes se instalarem, não restará dúvidas que em 1580 já estaria decerto este Convento concluído na sua primeira fase de edificação. Talvez seja mesmo esse o motivo pelo qual se fez Capítulo nesta casa fradesca.

Demoramo-nos nesta questão das datas não somente pelo mistério das datas que havíamos de solucionar (ou tentar), mas também porque o Cethomar, e ao qual agradeço o incremento e aprofundamento do artigo inicial, imponha que se trouxesse algo de novo ao que já havia sido escrito ou dito sobre o Conventinho. Não devia ser este artigo meramente uma divulgação ou promoção do espaço mas sim de alguma forma um contributo, e prova disso foram as fontes originais cedidas pelo Cetarquivo com que temos vindo a ilustrar o artigo e a biografar o Conventinho, assim como esta questão das datas, que resolvida, permitiu-nos então, pela primeira vez, estamos em crer, dar a conhecer em concreto o dia da fundação, já que em todas as obras que consultámos apenas se referir ter sido fundado (ou lançada a primeira pedra) no dia do Espírito Santo, o qual nem sabíamos em que ano em concreto seria.

Pentecostes representado no altar-mór da Capela do
Espírito Santo da Quinta do Conventinho

Apenas com a resolução da questões das datas, e pensamos a ter solucionado, conseguiríamos saber em que dia do ano se teria lançado a sua primeira pedra, visto o dia do Espírito Santo ser móvel, não se lhe conhecendo o dia sem saber em concreto o ano.

O designado dia do Espírito Santo é vulgarmente conhecido como o Dia de Pentecostes, o quinquagésimo calculado a partir do Domingo de Páscoa, havendo então que conhecer inicialmente em que dia se teria festejado a Páscoa no ano de 1573 no calendário Juliano, visto só ter entrado o nosso actual calendário - Gregoriano - em vigor a partir de 1582.

Podemos então afirmar, e se tivermos errados nos cálculos apreciaríamos a critica merecida, ter sido lançada a pedra da fundação do Convento do Espírito Santo de Loures, vulgo actualmente, Quinta do Conventinho, no Domingo de dia 10 de Maio de 1573, o qual corresponde no nosso calendário Gregoriano ao dia 20 de Maio.

Tecto da Sacristia
Representação do Espírito Santo

Parte I - Introdução | Loures Templária
Parte III Personagens da história do Conventinho | O Ministro e o burlão
    

9/08/2011

QUINTA DO CONVENTINHO

HISTÓRIA, LENDA E MISTÉRIO - parte I - parte II
Autoria: Paulo Andrade

Damos por iniciada a publicação do artigo “Quinta do Conventinho – História, Lenda e Mistério”, já anteriormente apresentado pelo Cethomar, ficando desde já aqui manifesto o nosso agradecimento ao Paulo Andrade por ter aceitado o nosso convite para escrever o artigo que nos próximos dias iremos dando a conhecer. Nos últimos meses temos vindo a publicar todas as quintas-feiras, o que tem levado a publicar artigos ainda não integralmente concluídos, mas doravante, iremos apenas publicando à medida que os artigos estejam completos, por forma a que possam ser publicados sequencialmente no blog sem postagem de outros textos que interfiram na sua leitura continua. A pressão de publicação semanal estava a colocar em causa as pesquisas pela celeridade a que obrigava. Iremos publicar nos próximos dias três dos nove capítulos deste artigo.


1. Introdução | Loures Templária

Um dos monumentos históricos mais pitorescos do Concelho de Loures, é sem dúvida, a Quinta do Conventinho em Santo António dos Cavaleiros, aureolada pela mística franciscana na região lourenha era designada no passado como Convento do Espírito Santo.

Do tecto da gruta do Leão no Conventinho

Este artigo, escrito a convite do Cethomar para publicação no blog dos Cavaleiros de Santa Maria dos Olivais, justifica-se por algumas similitudes verificadas com a história de Tomar e seus monumentos: lendas de secretos túneis; um claustro que à semelhança do Claustro do Cemitério do Convento de Cristo encerra dezenas de sepultamentos com as mesmas características; personagens históricas que estiveram envolvidas com ambas as zonas, de Tomar e Loures, nomeadamente o Conde de Tomar Costa Cabral; a existência de uma cripta (mais que uma) no Conventinho, que pode muito bem demonstrar como será, caso exista, a da Igreja de Santa Maria do Olival, não obstante serem de períodos diferenciados e por último, e talvez como não pudesse deixar de ser, o facto de Loures, onde se insere a Quinta do Conventinho, ter sido pertença da Ordem dos Templários, tendo deixado nesta zona fortes memórias do tempo em que aqui se estabeleceram e mantiveram, inicialmente como Ordem do Templo e posteriormente como Ordem de Cristo.

Tudo isto e muito mais será desenvolvido neste trabalho, estando reunidas, então, as condições para motivarem a sua publicação pelo Cethomar, divulgando assim mais uma das pérolas espalhada pelo nosso país, onde a influência e cruzamento com a história de Tomar e da Ordem do Templo parece estar bem patente.

Para realizar este trabalho socorremo-nos da magnífica publicação da Câmara Municipal de Loures “De Convento a Conventinho, biografia de um espaço“ e da excelente monografia “Ode a Loures“ de Vitor Manuel Adrião, além de alguns esparsos citados no “Guia de Portugal “ de Raul Proença, no “Portugal antigo e moderno” do Pinho Leal, entre outros, e no que respeita à presença Templária em Loures a vetusta e extensa obra de Mendes Leal “Admirável Egreja Matriz de Loures – Oriunda do V séc., edificada pelos Templários” e o livro do historiador e embaixador no Vaticano Eduardo Brazão “A Igreja Matriz de Loures e os Templários”, livro relativamente recente mas pouco acessível, e ao qual pertenceu a Casa do Adro que citaremos. No entanto não descurámos a nossa presença “ in loco “ para estudo e aprofundamento, extraindo para nós aquilo que mais nos sensibilizou, pois tão importante como as fontes bibliográficas, são igualmente as experiências pessoais, unindo desse modo o intelecto à intuição, à falta de documentos, sendo na nossa opinião a melhor forma de compreender um determinado local no espaço e no tempo.


Igreja Matriz de Loures e Cruz que estava no cemitério

Após esta nota introdutória podemos então começar por referir que existiu em Loures um convento franciscano dedicado ao Divino Espírito Santo fundado no século XIII por frades "da Ordem de São Francisco, o qual foi erigido pela Ordem dos Templários", segundo Mendes Leal, encontrando-se intimamente ligado à actual Quinta do Conventinho, como adiante iremos ver. Todavia para enquadrar a história deste espaço na envolvente, e também, dar a conhecer a história que lhe está associada, teremos que sucintamente abordar aspectos do passado desta zona, excluindo-se referências históricas alongadas a períodos anteriores à Ordem do Templo, citando apenas que:
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in “Admirável Egreja Matriz de Loures – Oriunda do V séc., edificada pelos Templários”
de Mendes Leal

A presença da Ordem do Templo nesta zona remonta ao período do mestrado de Gualdim Pais, e deve-se o seu estabelecimento ao facto de “D. Sancho I em 1178 sabendo que os mouros das cercanias de Lisboa, secretamente tramavam contando com o auxilio dos do interior da cidade e com os judeus da Judiaria, parte marítima de Lisboa, começou a prevenir-se com os Templários jà estabelecidas em Lisboa, e logo depois, com ajuda de uma arribada ao Tejo de parte da terceira cruzada, que acceitando a empresa, foram a essas cercanias combater os inimigos da fé, ficando em poder dos Templários todos os subúrbios, nos quaes se comprehende Loures: e conforme ás anteriores concessões na tomada de Lisboa, estabeleceram os Templários n'esta zona térrea o seu vígessimo oitavo mestrado em Portugal no anno de 1178.

Segundo cremos, seriam elles que expuzeram no cemitério a que nos temos referido, a actual cruz de pedra, symbolo dos martyrios de Jesus Christo, bem como o primeiro campanário para chamar o povo á oração ao adjunto Templo, que edificaram sobre ruinas da antiga egreja. Ao sul, muito perto e parallelo com o lado epistolar da egreja, edificaram também a casa para cartório e moradia dos respectivos sacerdotes, pondo por cima do portal a cruz que usavam os Cruzados.”

Pelas descrições teria a porta
Epistolar (ou do Paçal) semelhante cruz

Desta cruz Templária não havemos conseguido notícias até esta hora, visto já não estar no mesmo local onde Mendes Leal a terá conhecido no século XIX, todavia foi-nos possível ver  um dos túmulos templários ainda existente junto à porta principal da igreja matriz de Loures, e que curiosamente (ou não) é em tudo semelhante a uma outra tampa sepulcral conhecida de Tomar.

Tampas de túmulos supostamente templários
Esq: Loures | Direita: Tomar

Não são apenas as tampas das sepulturas que haviam existido – existe ainda hoje uma outra na Casa do Adro – que demonstram a actividade da Ordem do Templo em Loures, além dos documentos, obviamente, são também as cabeceiras das sepulturas prova disso, e encontramos testemunho de tal em diversos autores, nomeadamente em Mendes Leal e que a título de curiosidade refere a existência de “uma campa de pedra perto da torre, onde a custo se lê a data de 1100”, o que demonstra de facto o cemitério ser anterior aos Templários, mas também prova dessa actividade templária são as cabeceiras ainda possíveis de ver, visto algumas das melhores aqui recolhidas (na igreja matriz), estarem actualmente salvaguardas no claustro da Quinta do Conventinho, tendo sido precisamente estas que nos levou até à igreja matriz e à descoberta do que iremos descrever.
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Cabeceiras de sepulturas que se conservam na Qt. do Conventinho
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Imagem de uma cabeceira (ou túmulo) em Tomar, muito semelhante
 à terceira cabeceira que se guarda no claustro do Conventinho

Portanto, instituíram então os Templários o seu mestrado na zona de Loures e encontrando na baixa deste sitio, perto ou junto ao cemitério, ruínas de templo cristão, edificaram a actual igreja matriz entre 1180 e 1220. Muito haveria para dizer, mas para o efeito, e não querendo alongar demasiado o artigo, por forma a entrarmos no tema que suscitou esta publicação, passamos a extractar do livro de Mendes Leal partes de interesse que não queremos deixar de as dar a conhecer, até porque quem conheça a igreja de Santa Maria do Olival em Tomar, a sua história e alterações que sofreu, nomeadamente no século XV no tempo de D. João III, irá encontrar aqui elementos que ajudam a compreendê-la melhor.
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Da descrição de Mendes Leal ressalta de imediato a informação de que o orago desta igreja é o mesmo da igreja de Santa Maria do Olival, ou seja, Nossa Senhora da Assunção, o que talvez não seja de estranhar, afinal de contas é a essas semelhanças que nos temos vindo a referir, e que de certa forma contextualizam e justificam o artigo que dedicamos então de seguida à Quinta do Conventinho, terminado por agora com o último excerto onde se dá conta das alterações e clima que se viveu no séc. XVI, altura em que também na Igreja de Santa Maria do Olival “para a desobstruir”  se procedeu à remoção dos túmulos templários e se acrescentou espaço à igreja.
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Loures templária não é assunto que se esgote aqui, pelo que havendo manifesto interesse da parte dos leitores, poderemos acrescentar no final novo capítulo com mais informações sobre o tema, nomeadamente as que Eduardo Brazão inclui na sua obra de 1975, não se lhe tendo dado primazia neste capítulo por vermos que Mendes Leal tem sido olvidado e merecer a nossa máxima consideração, afinal de contas é pioneiro no estudo da presença templária em Loures. Também notícias da Cruz Manuelina que se encontrava no cemitério, recentemente roubada, haveríamos de incluir.

Nota: Não é de estranhar as semelhanças que existam com Tomar, até porque se tratam de zonas que tiveram sobre influência da mesma ordem, mas o facto de ainda as conseguirmos detectar torna-se importante do ponto de vista que o património templário nos últimos séculos tem sido feito desaparecer em função do dito progresso.

Índice
1. Introdução | Loures Templária
3. Personagens da história do Conventinho | O Ministro e o burlão
4. A presença alemã | O escondido Sidecar Hitleriano
                        5. A morte no Conventinho | Criptas e sepulturas do claustro
6. Lendas e Mistérios do Conventinho | O mítico Subterrâneo
7. Quinta do Conventinho | Arquitectura e descrição
8. Um contributo nosso para a história do Conventinho | Uma importante personagem
 esquecida na sua história
9. Recriação história no Conventinho